Fonte: Google Imagens
Por Moisés Pereira Sanguinette
Várzea da Palma - MG 18 de Setembro 2020
Diferente das demais revoluções, 'O Cangaço' foi o movimento revolucionário que ocorreu em um longo período de tempo, até chegar ao seu declínio. Segundo historiadores, existe controvérsias sobre quem foi exatamente o primeiro bandoleiro a agir pelo Nordeste, e de que o movimento possa ter ocorrido ao longo de 200 anos. De fato o que mais se vê nos registros históricos, é o surgimento do primeiro cangaceiro no ano de 1751, em Glória do Coitá (Zona da Mata Pernambucna), por nome de José Gomes (O Cabeleira), e o ultimo bandoleiro tenha sido Cristino Gomes da Silva Cleto (O Corisco), morto no ano de 1940 pelas forças do tenente José Rufino. No entanto, existe inúmeras controvérsias em torno desse acontecimento que aterrorizou o Nordeste entre os séculos XVIII e XX.
Primeiro, existe alguns estudiosos que afirmam que o movimento tem se iniciado muito antes do ano de 1751, e que devido as constantes revoltas no campo a revolução tenha se alastrado, alcançando seu declínio pós década de 1940. Segundo que, muito antes de José Gomes atuar no cangaço seu pai, Joaquim Gomes, era tido como cangaceiro, pelo qual obrigou o filho a se junta ao bando contra as vontades da sua mãe Joana, que nunca concordou com as truculências feitas pelo marido, que naquela época espalhava terror pela Zona da Mata Pernambucana. Terceiro, a boatos de um alcunha, que tenha sido cangaceiro, muito antes de Cabeleira e seu pai iniciarem a vida criminosa no cangaço. Quarto, algumas revoltas que ocorrerem pelos sertões do Nordeste, após o ano de 1940, possuem fortes relações com o cangaço. Dentre elas está a disputa por terras no extremo Norte de Minas, entre latifundiários e comunidades locais, nesse movimento temos Salustiano Gomes Ferreira (O Saluzinho), que em 1967 ficou conhecido após enfrentar sozinho mais de 60 agentes da ditadura militar enquanto se escondia dentro de uma gruta por seis dias. Sua história é destacada no relatório final da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Covemg) como uma das vítimas da perseguição contra trabalhadores rurais que lutavam por terras. Após a resistência, Saluzinho ficou preso no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em Belo Horizonte. Ele virou tema de música da região, e seu nome passou a ser utilizado para amedrontar crianças desobedientes. Na prisão, leu “Grande Sertão: Veredas” e passou a considerar a obra de João Guimarães Rosa como uma narrativa de sua vida pessoal. Saluzinho era posseiro de um terreno em Serra do Gato, no município de Varzelândia. No dia 17 de novembro de 1967, jagunços do fazendeiro Oswaldo Alves Antunes e policiais militares foram até sua casa para expulsá-lo da terra sem mandado judicial. Com uma espingarda velha, ele atingiu um jagunço e um militar, o que fez os demais desistirem de continuar a expulsão. De um simples camponês sem histórico de envolvimento em atos de resistência à ditadura, Saluzinho se transformou em um dos subversivos mais procurados da região. Com uma garrucha, um revólver 38 e duas espingardas, ele se embrenhou no sertão e se refugiou em uma gruta (JORNAL: O TEMPO, 2020).
A história de Saluzinho é mais uma consequência das desordens que existe dentro do Sertão Brasileiro, perdurando até os dias atuais, como fosse a continuação de dois personagens que marcaram a história política e social dos sertões baiano e mineiro na primeira metade do século XX. Antônio Antunes de França ( O Antônio Dó) e Rotílio de Souza Manduca ( Rotílio Manduca). Além de cangaceiros, esses homens eram inimigos, e buscavam privilégios na região sertaneja do Vale do São Francisco. Como consta nos altos, Antônio Dó veio de uma infância pobre nos sertões da Bahia (Pilão Arcado), sua família, fugindo das secas tangentes e da miséria que assolava o sertão, navegou o São Francisco até a cidade de São Francisco - MG. Local onde residiria, tornando Dó um fora da lei, a ponto de comprar briga com as principais autoridades da cidade, razão pelo qual se tornou cangaceiro influente na região de São Francisco e na Serra das Araras, hoje atual município de Chapada Gaúcha-MG. A aquisição de terras de maneira idônea, fez dele um dos homens mais temidos do Vale de São Francisco, de modo que a busca por sua prisão foi constante. que o fez passar um bom tempo escondido no sertão da baiano, imune dos confrontos com as volantes mineiras. Assim como Dó, Rotílio Manduca ostentava a pose de cangaceiro coronel, nascido em Remanso - BA, deixou a sua terra e mais tarde se tornaria uma das figuras mais conhecidas de Brasília de Minas - MG, como de todo sertão. Antônio Dó e Rotílio Manduca, figura no que chamamos de 'cangaceiro-coronel', agindo como fora da lei e adquirindo possessões de terras na base da força, desafiando o poder das autoridades locais. Diante disso, esses personagens, jamais podem ser considerados heróis, no entanto, são endeusados pelos moradores dos municípios de Brasília de Minas, Chapada Gaúcha, São Francisco (Sertão de Minas Gerais) Pilão Arcado, Remanso (Sertão da Bahia). É justamente sobre isso que explicarei ao longo desse artigo.
Bandidos ou Heróis? Eis a questão sobre o cangaço e os cangaceiros. Primeiro que o cangaço é um movimento que surge após a crise da cana-de-açúcar, em períodos simultâneos ao ciclo do ouro e do café. E a economia Nordestina estava em decadência nesse período, foi a consequência para o surgimento das tensões no campo. Porém, a origem desse movimento não se deu no Sertão, os primeiros grupos de cangaceiros surgiram na Zona da Mata Nordestina. Com a crise da cana, o Sertão passa a ser a única região econômica do Nordeste, voltado totalmente para produção extensiva de gado bovino, principalmente no Vale do São Francisco. O Sertão passa a ser reduto dominado por coronéis, religiosos, políticos e cangaceiros, que exerciam um certo poder sobre a população. O coronelismo tomou os Sertões do Nordeste entre os séculos XVIII e XX , numa faixa que se estende de Minas Gerais ao Maranhão, motivo pelo qual, o cangaço ter ocorrido em todos esses estados e ter exercido total influência sobre a sociedade Nordestina até os dias de hoje.
Infelizmente, o erro está na forma de interpretar o cangaço e os cangaceiros, pois, grande parte da sociedade Nordestina vê o personagem cangaceiro como um herói, tipo aqueles registrados nos filmes de faroeste americano. Mas, não é bem assim que dita a história do Cangaço Brasileiro. Tratam eles como justiceiros que corrigiam as injustiças ocorreram no Sertão, de certo que a história trata esses personagens como pessoas injustiçadas, marginalizadas e afrontadas pelos poderosos da época. De um lado devemos concordar que, muitos desses homens agiram fora da lei, por que tiveram motivos para isso. Virgulino Ferreira da Silva (O Lampião) pelos desafetos que possuía com José Saturnino, que pertencia a família Alves de Barros e tinha grande influência sobre a região de Serra Talhada (PE), Sertão do Pajeú. No que culminou na morte do seu pai, José Ferreira, pelas forças policiais do tenente José Lucena, e foi o estopim para Lampião começar a rebelião ocupando páginas dos principais jornais do Brasil. Anteriormente, Jesuíno Alves de Melo Caiado (Jesuíno Brilhante), natural de Patu-RN, se rebelou contra o poder local após ter o seu primo, José Caiado, morto por integrantes da família Limão, acumulando uma serie de desavenças, que teve o seu início com a prisão do seu irmão, Lucas, após ter questionado a prisão dos integrantes da família Limão, que teria roubado uma de suas criações, e quando foi da parte as autoridades, foi preso no lugar dos culpados. No que gerou grande revolta por parte de Jesuíno, que invadiu a prisão, libertando o seu irmão e todos os outros prisioneiros que estavam presos na cadeia pública de Pombal-PB. De certo que, ao contrário dos outros bandoleiros, Jesuíno, nunca teve fama de ladrão, muito menos saqueou cidades, como está relatado nos relatos de sua história. Segundo consta, o seu bando agiu pelo Nordeste entre os anos de 1871 á 1879, nesse período o Sertão se encontrava flagelado pela seca e a única solução provinha dos mantimentos destinados pelo governo, para a alimentação das famílias assoladas pela seca. Porém, havia oportunistas, em sua grande maioria, coronéis da região, que saqueavam as mercadorias, fazendo que não chegassem até a população. O bando de Jesuíno Brilhante interceptavam os comboios de alimentos roubados pelos jagunços, destinando as famílias afetadas pela seca. A exemplo de Jesuíno, Manoel Baptista de Morais ( O Antônio Silvino) 'O Cangaceiro do Rifle de Ouro' , também é tido como aqueles que não aderiram ao roubo no cangaço, entrou no cangaço em 1896, pelos mesmos motivos dos demais, brigas entre famílias, algo muito comum na realidade camponesa do Nordeste Brasileiro.
Taxar Jesuíno ou Antônio Silvino como heróis, talvez isso seja aceito por parte da sociedade, pois, muitos os consideram defensores do povo do Sertão. Mas, a partir do momento, que individuo pratica um homicídio, mesmo que seja em um ato revolucionário, já é considerado crime, e a justiça o tem como bandido. Para muitos, esses dois personagens foram justiceiros. Sem contar que outros exaltam Lampião, como se fosse o grande herói dos Nordestinos, mas, não sabe o que está por trás de sua história. Figuras como Corisco, Antônio Dó, Rotílio Manduca, Sinhô Pereira, são vistos como salvadores da pátria, nos locais por onde passaram. Até mesmo as volantes que perseguiram os homens mais valentes e temidos do Nordeste, são endeusados, principalmente por aqueles contrários a postura dos cangaceiros. Quem nunca ouviu falar da história de Alferes Felix Rodrigues (O Felão) o perseguidor de António Dó, José Lucena, João Bezerra, José Rufino que travaram grandes combates com Lampião e Corisco. Sem contar os religiosos em envolvidos na política e no cangaço , o maior exemplo deles, está na alcunha do Padre Cicero Romão, coiteiro de Lampião, no qual foi o responsável pela entrada do cangaço no estado do Ceará, no objetivo de organizar uma rebelião contra o governo local. As pessoas precisam parar de glamourizar os fatos e procurar conhecer a história como ela realmente é, E por não conhecerem a história, que transformaram esses personagens como símbolos de idolatria para suas vidas. Nada vai apagar os crimes, os assaltos, os estupros praticados pelo bando de Lampião e de outros cangaceiros. Como também não irá apagar os desvios de caráter do Padre Cicero e de outros religiosos. As mortes de pessoas inocentes promovidos por coronéis, políticos e autoridades policiais. Crimes que são praticados até os dias de hoje. De certo que os bandidos de hoje são muito perigosos do que os bandidos do passado, eles estão na política, religião e na sociedade. Portanto, não vejo os personagens do cangaço como heróis, e sim, como pessoas que fazem parte de uma história que a história não conta. E para isso, é preciso entender as duas faces da moeda.

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